Um quilo de leite em pó chega da Argentina custando quase metade do preço do produto nacional. O governo brasileiro reconheceu a prática de dumping — mas decidiu não taxar. A indústria de laticínios ficou no meio do fogo cruzado.
Enquanto o produtor comemora a recuperação do preço no campo em 2026, quem está na outra ponta da cadeia — a indústria de laticínios — enfrenta um problema bem mais silencioso e bem mais caro: concorrer com um produto importado vendido abaixo do custo de produção, sem conseguir repassar isso ao preço final.
A conta que não fecha
Segundo dados oficiais analisados no processo de investigação, o quilo do leite em pó brasileiro custa em média US$ 6,12, enquanto o mesmo produto sai da Argentina a US$ 3,88 e do Uruguai a US$ 3,81 — uma diferença de quase 60%. O queijo muçarela nacional chega a ficar 27% mais caro que o concorrente importado.
Não é força de expressão dizer que é dumping: em maio de 2026, o Comitê-Executivo de Gestão da Câmara de Comércio Exterior (Gecex) reconheceu oficialmente a prática de dumping nas importações de leite em pó vindas da Argentina e do Uruguai, com margens de distorção de preço de até 60% para a Argentina e 50% para o Uruguai. A investigação foi aberta depois de a CNA protocolar o pedido em 2024 — um processo que levou quase dois anos para sair do papel.
E o desfecho pegou o setor de surpresa: mesmo reconhecendo o dumping, o governo suspendeu a aplicação das tarifas antidumping, alegando risco de impacto na inflação ao consumidor (o setor lácteo pesa cerca de 0,2% no IPCA). Ou seja: o problema foi confirmado, mas a solução ficou engavetada.
Por que a indústria não consegue competir
O placar não é só de preço — é estrutural. O Brasil produz cerca de 35 bilhões de litros de leite por ano, espalhados por mais de 1 milhão de propriedades, a maioria com produção abaixo de 50 litros por dia. A Argentina produz 11 bilhões de litros concentrados em apenas 10 mil fazendas (“tambos”), com média de quase 3 mil litros por dia cada uma.
Essa diferença de escala e organização se traduz direto em custo de captação, logística e industrialização — e é isso que permite ao concorrente vender mais barato mesmo pagando um preço justo ao seu próprio produtor.
O resultado prático já aparece nos números de importação: o volume trouxe para o Brasil mais de 1 bilhão de litros em equivalente leite só entre janeiro e maio de 2026, novo recorde para o período, com Argentina e Uruguai respondendo por mais de 80% do leite em pó importado. Somando os últimos anos, as importações triplicaram desde 2022.
A dor que ninguém fala em voz alta
Para o laticínio brasileiro, o aperto vem dos dois lados ao mesmo tempo: paga mais caro pelo leite captado no campo (o que é bom para o produtor, mas eleva o custo industrial) e disputa prateleira com um produto importado mais barato, agora oficialmente reconhecido como desleal — só que ainda sem punição.
E na sua indústria, como esse cenário está pesando?
A concorrência do importado já apareceu na sua negociação com o varejo este ano? Como sua empresa está lidando com esse aperto entre custo de captação em alta e concorrência desleal do importado? Comenta aqui com a gente.
Paula Canova
