O Brasil intensificou a compra de leite no mercado externo em 2026. Entre janeiro e junho, o país trouxe 102,3 mil toneladas de leite em pó, volume 13,2% maior do que o registrado no mesmo intervalo do ano anterior. É o maior número já contabilizado para um primeiro semestre desde que a série histórica começou a ser medida.
Uma sequência de recordes, não um fato isolado
O resultado não surgiu do nada. Levantamentos do setor mostram que, desde 2023, cada primeiro semestre supera o anterior em volume comprado no exterior, o que tirou o caráter de exceção dessas marcas e transformou o avanço das importações em tendência consolidada. Em março de 2026, inclusive, foi batido o maior volume mensal de toda a série histórica, e os três meses seguintes — abril, maio e junho — também estabeleceram recordes para seus respectivos meses.
O leite em pó segue como o carro-chefe dessa entrada de produto estrangeiro. Levantamentos baseados em dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex) indicam que a categoria que reúne leite em pó e derivados concentrou a maior fatia de todo o volume importado em equivalente-leite no semestre, com participação acima de 70%. Somente em junho, as compras dessa categoria específica cresceram cerca de 27% ante o mesmo mês do ano passado.
Mercosul concentra as compras
A origem dessas cargas está fortemente concentrada em dois vizinhos do bloco. Argentina e Uruguai respondem, juntos, pela quase totalidade do leite em pó que entra no país, favorecidos pela ausência de tarifas dentro do Mercosul e por custos logísticos menores em razão da proximidade geográfica. Esse arranjo levou entidades do setor produtivo a apontar concorrência desleal: uma investigação de dumping aberta a pedido da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) concluiu que havia margens de preço artificialmente baixo nas exportações argentinas e uruguaias para o Brasil.
Com base nessa investigação, o governo chegou a reconhecer formalmente a prática de dumping e aprovou a aplicação de direitos antidumping por até cinco anos sobre o leite em pó integral e desnatado vindo dos dois países. Na prática, porém, a cobrança dessas tarifas foi suspensa logo em seguida, para que fosse avaliado o impacto da medida sobre preços internos, abastecimento e inflação — decisão que provocou reação de entidades ligadas ao produtor rural, que cobram a efetivação das tarifas.
Efeito sobre o produtor nacional
O volume crescente de leite importado chega em um momento de produção interna também elevada, o que tem gerado sobreoferta no mercado brasileiro. Essa combinação pressionou para baixo o preço pago ao produtor ao longo dos últimos meses, especialmente a partir do segundo trimestre, e já é apontada por representantes do setor leiteiro como fator que tem levado produtores a reduzir ou até desistir de investimentos na atividade.
Ainda assim, mesmo com a maior entrada de produto estrangeiro, o déficit da balança comercial de lácteos segue como um dos mais altos da série histórica para um primeiro semestre, resultado da diferença entre o que o Brasil compra e o pouco que consegue vender ao exterior.
O que esperar daqui para frente
Com a avaliação de interesse público sobre as tarifas antidumping ainda em curso, o desfecho da disputa comercial deve ser um dos pontos centrais para o segundo semestre: a manutenção da suspensão tende a sustentar o fluxo de importações vindas do Mercosul, enquanto a efetivação das tarifas poderia encarecer o produto estrangeiro e aliviar parte da pressão sobre o preço pago ao produtor brasileiro.
Rafaela Munaretto
Conteúdo e Comunidade
